quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

II Concurso de Fotogeografia


O Pet Geografia agradece a todos (as) que participaram do II concurso de Fotogeografia e parabeniza todos os participantes pela qualidade das fotos enviadas, pois todos os candidatos apresentaram critérios rigorosos e uma criatividade imensa, que aliada com as técnicas de fotografia mostraram uma qualidade fantástica.
As três primeiras fotos foram selecionadas de acordo com o enquadramento e coerência ao tema proposto, sendo elas:  

Primeiro Lugar:  Tadeu de Macedo Santana - UFF
A foto conseguiu mesclar muito bem técnicas fotográficas com um olhar geográfico, demonstrando muito bem a contradição e a desigualdade social gerada em uma cidade que possui o metro quadrado mais caro do país que é a cidade do Rio de Janeiro. 





Segundo Lugar:  Dayane Dias - UFGD
A foto se assemelha muito com a primeira colocada por mostrar as desigualdades sociais geradas em uma cidade que coloca o valor de troca sobre o valor de uso, mas, o seu diferencial está na imagem da criança, que mesmo diante de tantas contradições consegue criar um espaço lúdico e de diversão, criando uma territorialidade  muito mais simbólica do que concreta.




Terceiro Lugar:  Erlan Diego da Silva - UFGD
A foto demonstra muito bem a romantização da natureza, que, transformada em mercadoria é idealizada como algo que deve ser visto e apreciado, tornando a paisagem um produto que pode ser consumido por meio de atividades de turismo, tendo a paisagem de Foz de Iguaçu como exemplo. 
   





 Vídeo com imagens participantes:


Férias em São Paulo: os olhares de um estudante que vive diferentes realidades no período de recesso acadêmico


          Nos períodos que correspondem a dezembro de 2018 e janeiro de 2019, eu, Anderson Aparecido Santos da Silva, estudante do 3° ano do curso de Geografia da UFGD passei as minhas férias com a família no munícipio de São Paulo, cidade no qual eu nasci, fui criado e passei a maior parte da minha vida, experimentando as mais diversas experiências, além de momentos bons e ruins que a mesma me proporcionou ao longo deste tempo. Vivendo em um bairro da região leste da cidade, São Mateus, que é considerado um bairro de periferia, pelo fato de se localizar em uma área longe das áreas tidas “valorizadas” e do centro da cidade.

 Residindo em Dourados há mais de um ano (desde do período de 2017 que foi quando eu iniciei no curso de geografia da UFGD), sempre passei as férias de fim de ano em São Paulo – capital, sendo que dessa vez eu fiquei um período muito maior em casa se comparado com as férias de 2017 -2018, me possibilitando de enxergar transformações e mudanças que não havia percebido anteriormente. 
Ao voltar para São Paulo, logo de cara, me deparo com uma cidade com mais prédios e arranha-céus em lugares que antes não existiam, se tornando uma cidade mais verticalizada, se comparado com a minha última visita. Me deparo também com um bairro que até então,  era conhecido pelas suas áreas de proteção permanente, se tornar mais urbano, com mais pessoas, com mais comércios e serviços que antes não costumava ser oferecido, mas, o que me chamou mais a atenção nesse período não foi o aumento da verticalização ou crescimento de um bairro considerado ainda por muitos “periféricos” mas sim a contradição de uma cidade que investiu nos últimos dois anos na revitalização de pontos turísticos do centro da cidade, expulsando diversos moradores de rua da área central da cidade, pessoas essas que, sem sobra de dúvida são as mais vulneráveis dessa metrópole  conhecida como a selva de pedra. Nesse meio tempo, notei também o expressivo aumento do policiamento desta área, tornando os moradores de rua os seus principais alvos.
Além disso, secretarias da prefeitura que cuidava de temas ligados aos direitos humanos e ao público LGBT e dos moradores de rua foram simplesmente fechadas pela atual gestão, pelo fato de considerarem estes temas “desnecessários,” tornando o mesmo, assuntos de menor importância. Nesse tempo em que fiquei em São Paulo, ficou nítido que a cidade investiu pesado na revitalização áreas como a região da Praça da Sé, da 25 de março, da estação da luz, do Bom Retiro, além de algumas outras áreas, com o intuito de  de tornar a cidade mais atraente para turistas e investidores, empregando a clara política de “city Marketing”. De fato, alguns pontos turísticos como o memorial da resistência e a Pinacoteca do Estado (que se localizam próxima a estação da Luz) receberam reformas de manutenção, suportando a entrada de mais obras e esculturas, dando espaços para mostras até então inédita na cidade, como a que está ocorrendo no memorial da resistência, que conta a história de São Paulo antes da chegada dos colonizadores.
É interessante ver uma cidade receber turistas de outros países, é interessante ver outras línguas sendo faladas no meio da região central da cidade, mas ao mesmo tempo é deprimente ver uma cidade que enaltecer o turista americano ou Europeu que está fazendo turismo em São Paulo, mas que ao mesmo tempo, despreza e marginaliza o imigrante Boliviano, Venezuelano, Haitiano e de diversas outras partes do continente Latino Americano e/ou do continente Africano que se mudam para São Paulo com o objetivo de alcançar um patamar de vida melhor para ele e para a sua família.
Me entristece perceber que a cidade, apesar de estar mais bela do que nunca, ter se tornado menos humana em detrimento de uma lógica econômica que beneficia poucos. Percebi também que as pessoas residentes de bairros como o de São Mateus, cidade Tiradentes e tantos outros que nasceram da luta dos marginalizados e negligenciados que lutaram pelo seu direito à cidade, pelo direito de uma moradia digna, pelo direito de existir enquanto cidadão, serem engolidos pela lógica capitalista que sobrepõe o valor de troca sobre o valor de uso da terra urbana e da moradia, e pior, as pessoas residentes destes mesmos bairros, comprarem esta ideia, deixando de lado todo o seu histórico de luta e resistência, acreditando ser isso o realmente certo a se fazer e se seguir.
A volta pra casa desta vez não foi nostálgica, não teve o impacto da primeira vez, de fato, com o tempo a pessoa se habitua com esse ir e vir, sem deixar de lado o carinho e as lembranças afetivas que o identificam enquanto morador, seja de um bairro e/ou de uma cidade, Mas é difícil voltar para a sua cidade de origem e perceber que atividades tão comuns para você como visitar museus ir ao cinema, conhecer outras cidades e estados e cursar uma universidade pública, gratuita e de qualidade, mesmo que seja em outro estado ou cidade, seja algo como uma realidade tão distantes e até mesmo desnecessário  para amigos e pessoas  que cresceram e passaram uma parte importante da sua vida ao seu lado, seja  como vizinho, amigo de escola ou até mesmo de trabalho, nesse momento a gente percebe que o exílio na periferia continua bastante vivo e avançando cada vez mais.
Pela primeira vez, me senti como um estranho em minha própria cidade e no meu bairro, percebi o quanto eu mudei a forma de enxergar o mundo a minha volta, mudando o jeito de analisar os fatos e a realidade que me cerca. É triste perceber que as pessoas a sua volta não percebem o quanto a cidade mudou, só que para pior, é triste perceber que seu amigos e até mesmo alguns de seus parentes e pessoas próximas foram afetadas pela histeria e ódio coletivo, gerado por um discurso ultraconservador e neoliberal que desconsidera toda a humanidade em detrimento de objetivos tão egoístas como o lucro e o acúmulo de objetos supérfluos que farão pouca diferença na sua vida. Eu acredito que como tudo na vida, isso um dia também irá passar, pois nada na vida é pra sempre, até mesmo essa loucura na qual o Brasil vem passando também irá passar. Espero e torço para ver uma São Paulo mais humana, uma São Paulo que dê importância não só para os turistas como também para aqueles que buscam uma vida melhor, ou até mesmo aqueles que são deixados à própria sorte nas ruas da capital. enquanto isso faço o possível e o impossível para que as pessoas em minha volta não sejam levadas por essa onda de ódio e de histeria coletiva.







PETiano: Anderson Aparecido (Cidão)